28/12/08

parar para respirar

António Pinho Vargas acompanha-me a estas horas noite. Em segundo plano o piano toca, envolvendo o silêncio que ecoa nesta casa, nestas quatro paredes que me albergam no mundo, onde encontro paz de espírito, onde encontro o meu regresso a casa, onde deixo os meus pensamentos fluírem à velocidade do tempo. À velocidade que eles querem voar, com tempo, nota após nota, momento após momento.

Um dia destes ofereceram-me um livro de seu nome “A vida num sopro”. Mais um romance do José Rodrigues dos Santos, do qual as críticas falam bem. Mais um livro para devorar página após página, capítulo após capítulo. Ainda não iniciei o desfolhar das páginas – aguarda pacientemente a sua vez na mesa-de-cabeceira.

Mas o título faz-me pensar. Da mesma forma que quando encerramos a nossa existência neste mundo, sopramos um último suspiro, os momentos da nossa vida são sopros que vão existindo. Mas serão os momentos da nossa vida para serem vividos como sopros, como algo que passa, algo que é efémero, rápido, volátil?

A vida é fácil de viver de uma forma rápida, concisa, fácil de esquecer. O que é já foi, já passou, faz parte do passado, o presente apresenta-se como num minuto e o futuro é a hora a seguir. O imediato mastiga-se, devora-se, e deita-se fora. O sabor fica momentaneamente, o prazer deleita o momento, o êxtase finaliza.

Será isso o que foi a minha vida até agora?

Os momentos fáceis de entender, viver e saborear. As receitas copiadas de um qualquer livro fácil de folhear e ler. A procura do resultado na leitura atenta das palavras. A junção dos ingredientes certos, na quantidade certa, na altura certa.

Não pensar. Viver, sentir, saborear. O rápido adoçar da boca.

Ler um livro de receitas é utilizar o saber dos outros. É aplicar o que os outros pensam ser correcto. São instruções feitas à medida dos resultados. É fazer e não pensar. O resultado está aí, é só aplicar. É só fazer.

Chega!
Chega de ser fácil, de ser momentâneo, de ser efémero.
Chega de ser sopro após sopro.

O travo das coisas tem que ficar cá dentro – para ser saboreado de tempos a tempos. Como algo nosso, como algo continuado, como algo construído, como algo erguido.

O sopro da vida, a vida num sopro.

Já soprei demasiado na minha vida.
É tempo de parar para respirar.

Sem comentários:

Enviar um comentário