Hoje o artigo de capa da revista Visão fala de Angola e das oportunidades que estão à disposição de todos aqueles que queiram embarcar numa aventura para sul. Eu aconselho, do fundo do meu coração.A minha aventura em Angola aconteceu em 2000. “Fugi” para Angola numa altura da minha vida em que era mais fácil virar a cara do que enfrentar o que me doía na alma. Abracei um desafio profissional excepcional e lá fui eu (sem saber muito bem ao que ia). Mas certo que me faria bem.
Realmente os primeiros passos em território angolano mexem connosco. A humidade alta que quase não nos deixa respirar, o cheiro típico a África, uma realidade que nos é desconhecida. Durante a primeira semana perguntei-me várias vezes o que lá estaria a fazer. Mas dia após dia, a procura desta resposta foi desvanecendo, porque Angola (África), ou se ama ou se detesta; não há meio-termo.
Luanda era (é) uma Babel, com infra-estruturas deficientes e nada capazes de fazer face à população que lá habita. Tudo se vende na rua, nas esquinas, nas paragens dos semáforos. Tudo se negoceia, tudo se contrabandeia. À primeira vista não se arranja nada, se fecharmos os olhos, tudo aparece.
Luanda com a sua marginal a desembocar na “ilha”, local predilecto para apanhar um pouco de sol na praia ou então participar em jantares em clima tropical até altas horas da noite, rodeado de pessoas oriundas de todo o mundo, numa franca troca de experiências e culturas.
Luanda, com os seus bairros “ricos”, cheios de opulência, casas enormes, sempre com um traço colonial.
Tive a oportunidade de conhecer o outro lado de Angola, longe da metrópole para onde todos se refugiaram. Percorri a marginal no Lobito banhado pelo mar (linda de morrer), tentando (re)viver o que foi a vida dos portugueses antes da guerra colonial. Em Benguela senti a força dos caminhos-de-ferro, acompanhando até perder de vista a linha ferroviária. Imaginei locomotivas a vapor. Lubango fez lembrar o nosso Alentejo, mas mais verde e fértil. Planícies de perder de vista. No Sumbe praias exóticas, onde investi tempo a olhar para o mar. Em Cabinda e Soyo, carrinhas de trabalhadores das companhias petrolíferas a entrar e sair, uns a caminho do descanso, outros em preparação de mais 30 dias de trabalho árduo. No Soyo, olhei muitas vezes para lá do rio, a tentar descortinar o que se passava nas florestas do Congo. Em todos estes locais, conheci pessoas fantásticas, trabalhei, partilhei, ensinei e aprendi. Aprendi que, por muita revolta, insegurança, guerra, atrocidades, pobreza e tudo mais que possa existir, existe uma força interior enorme de querer dar a volta, de querer aprender, de querer sobreviver.
O que mais recordo de Angola é o olhar das crianças. Por muito sujos, mal vestidos ou mal nutridos, o olhar daquelas crianças nunca deixava de ser ternurento, mostrando mais uma vez que o olhar é o espelho da alma.
Deixei Angola passado um ano. Trouxe comigo um país na alma. Ou se ama ou se odeia. Para mim, ficou sempre no meu coração.
Um dia, quem sabe, poderei reviver “a minha amada”.
Obrigado, Angola.
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