11/08/09

alma de primo

Hoje escrevo-te do fundo das minhas recordações. Nunca te escrevi, nunca traduzi em palavras tudo aquilo que me fizeste sentir desde que partiste. Depois da tua partida, incrédula, repentina, atroz, ainda te visitei uma ou duas vezes, na esperança de escutar um "até logo" ou "vemo-nos no próximo fim-de-semana?". Não ouvi.
Foste, fugiste, partiste e levaste parte de mim contigo. Porque tu eras parte de mim. Eras o amigo distante que se aproximava sempre quando precisei de ti. Eras o meu terceiro irmão. Eras o parceiro de conversa, leitura, música, café, e tantas outras coisas. Nada escondiamos um do outro; falavamos, escutavamos, discutiamos, partilhavamos. Não havia tabus no que se tinha de dizer. Podiamos estar longe tempos e tempos e no dia em que nos reuniamos novamente, era como se a breve despedida tivesse acontecido no dia anterior.
Contigo aprendi o verdadeiro significado da amizade, na sua simplicidade mais extrema. Dar e receber sem cobrar, sem julgar.
Desde que partiste sem dia ou hora marcada, algo se fechou cá dentro. Hoje, passados muitos anos (demasiados talvez) reconheço que o luto está feito, está marcado, está fechado.
E só me apercebi disto numa conversa aberta, franca, honesta. Poucas vezes falei de ti a outros, como que a guardar a tua recordação só para mim. Naquela noite falei de ti no passado.

Sim, só reparei nisso hoje.

Tantos anos passados e contigo aprendi as coisas simples da vida. É um facto que tenho alguma dificuldade em fazer compreender isto "das coisas simples" às pessoas.
Eu sei bem o que é. Tu também o sabias.

O teu sonho era pregar uma rasteira a um carro.
Naquele dia em que partiste alguém disse que foi a vida que te pregou uma rasteira.

1 comentário:

  1. No fundo, eu sempre soube que viria o dia em que as palavras falassem mais alto e te obrigassem a escrever este texto. Tão bem.

    Todos os dias vejo em cima do móvel do meu quarto uma fotografia tirada há 22 anos: uma cara sorridente e algo matreira, cabelo desgrenhado e sardas... a expressão de quem, de facto, seria capaz de pregar uma rasteira a um carro...! Pisco-lhe o olho e devolvo-lhe o sorriso, imaginando que um dia destes vamos todos tomar uma bica e festejar o S. João. Ou falar pela noite dentro sobre a biblioteca fantástica d'O Nome da Rosa que ele adoraria ter projectado... a ouvir Waterboys.

    Alma de irmã. Alma de prima.

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