18/10/11

alma emigrante

Há cerca de 10 anos atrás deixei o meu país para me aventurar profissionalmente em Angola. Foi quase um ano fora de casa, longe de tudo e todos. Hoje vejo essa minha viagem como uma fuga para a frente, deixando para trás coisas por resolver, conversas por ter. Resolução fácil no momento, díficil de gerir no futuro.

Mas Angola ficou estranhada cá dentro. O país, as pessoas, as vistas, os cheiros, a confusão, o interior lindo de morrer. Quem me conhece sabe o brilhozinho que se avista no meu olhar sempre que falo do país.

Alinhamento das estrelas, destino escrito na palma da mão, alguma alma protectora que me acompanha, hoje, dez anos passados vou regressar a Angola.
Desta vez não vou "fugir para a frente", vou em frente, com o coração e alma cheios de esperança, certo que é uma decisão certa, com pernas para andar, com rede de segurança.

É um projecto a dois, com tudo aquilo que acarreta, com tudo aquilo que tem de bom e de menos bom. Longe de tudo e todos são dois portos de abrigo que se complementam.

Um mais um fazem dois.
Dois fazem um.

A caminho de Angola.

17/10/11

alma de ladrão??


Sou acusado (e não em hasta pública) de roubar alguém. De a levar para longe, para longe da família, dos hábitos, dos rostos, das conversas, do toque, da proximidade. De a roubar do olhar próximo, dos afectos quentos, dos sorrisos, das lágrimas.
Custa ser acusado de tal. Principalmente quando alegamos inocência, pura e dura.
Principalmente quando uma decisão dessas é tomada a dois, com todos os prós e contras pensados, discutidos, desmontados, remontados, analisados, chorados e sorridos.
Principalmente quando não existe um ir atrás do outro, porque o outro vai e não se quer perder. E por isso se vai.
Principalmente quando não está em causa um ser mais que o outro, ou um "valer" mais que o outro.
Somos a soma daquilo que trazemos para dentro do nosso círculo. Somos dois a pensar por um, somos dois a construir um castelo.

Não sou nem tenho alma de ladrão.

Acusado de ser ladrão? - É mais uma pedra neste nosso caminho que amo!

"Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,
mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo.
E que posso evitar que ela vá a falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver
apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e
se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar
um oásis no recôndito da sua alma .
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um 'não'.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.

Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."

Fernando Pessoa

26/09/11

Alma de viagem

Neste viagem tão longa que é a vida, vamos encontrando encruzilhadas, caminhos tão opostos que podemos seguir, onde o livre arbítrio é nosso, salvo raras excepções.
Foram bastantes as encruzilhadas com as quais me deparei. Algumas de fácil escolha, lógica, com rumo, outras onde a escolha foi certamente a errada. E nessas não existe o voltar atrás, há que aprender com as nossas escolhas. Durante um período (demasiado) longo da minha vida, fui escolhendo vias mais fáceis, aquelas nas quais não pensamos (ou não queremos pensar). E mais tarde sofri na pele essas decisões. Há algum tempo atrás parei (mesmo não estanto perante uma encruzilhada). Parei para pensar nos caminhos seguidos no meu passado, as minhas opções, os meus erros. E decidi conhecer-me por dentro antes de tomar decisões, escolher caminhos.
Hoje, passado já algum tempo dou comigo a tomar decições mais ponderadas, mais pensadas. Não perdi a minha impulsividade (nunca!!), mas sei onde estão os limites (inferior e superior). Sei onde me encontro, sei o que quero e mais importante, sei o que não quero.
Encontrei dentro de mim valores que estavam "escondidos", guardados, sem direiro a serem considerados.
Valores como sentido de família, partilha, frontalidade, amizade. E nestes valores também me (re)encontrei.
Já vai longa esta minha viagem. Não me canso de viajar todos os dias mais um pouco, certo que todas estas estradas, estas encruzilhadas, me levam a um local melhor, a um EU melhor.
Mas hoje - mais que nunca - sei para onde quero que esta viagem me leve.

16/05/11

alma ingrata

A vida é ingrata. É daquelas verdades que só nos apercebemos quando somos confrontados de fronte.
Não que pensemos que nada nos acontece a nós ou àqueles que nos são queridos, mas pelo menos encaramos o dia a dia com uma esperança renovada.
A vida é ingrata, esbofeteia-nos quando menos esperarmos. A nós e a todos aqueles que nos "pertencem" de uma forma ou outra.
Principalmente quando se trata de alguém que ama sempre incondicionalmente, sem tirar nem pôr. Que somente de ouvir a nossa voz ou sentir o nosso cheiro abana a cauda como se do final do mundo se tratasse. Que nos olha com um brilho constante, que nos põe a pata na perna como que compreender a angústia ou a tristeza do momento. Que nos atiça para a brincadeira com um simples abanar da cabeça ou com uma meia roubada do cesto da roupa. Que nos escuta com o focinho aninhado no colo.
Estás connosco hoje, não sei por quanto mais tempo. A medicina alega que já por cá não devias andar, a tua força de vontade caminha em sentido contrário.
A tua cauda continua a mover montanhas.
E continua a mover-me a mim - como sempre e para sempre.

21/01/11

alma de viagem


Foi mais uma paragem numa estação, apeadeiro nesta longa viagem que é viver.

Neste apeadeiro tive o prazer de me reencontrar, sozinho mas não só. Sim, há diferenças em estar sozinho e estar só!
Nestas quatro paredes onde me refugiava do mundo ao qual pertenço, chorei, ri, pensei,sonhei acordado, escrevi, fiz "absolutamente nada", fui feliz. Senti desespero, pouca luz ao fundo do túnel. (Re)encontrei a esperança em mim. Cresci mais um pouco, amadureci.
Nestas quatro paredes sentia sempre o regressar a casa e sentia-me em casa. Carregava baterias, enchia o peito de ar.
Parto agora para mais uma viagem. Uma viagem que acredito ter destino, mas sem estação de chegada. Um caminhar constante, de partilha, de compromisso, de cumplicidade.
Parto mais confiante, mais seguro de mim, mais determinado.

01/12/10

alma de país onde não se passa fome

Numa altura em que só se fala de crise, de juros, de dívida soberana, remodelações governamentais, das imposições da Alemanha na união europeia e tudo o resto que vai enchendo os alinhamentos dos telejornais, a atenção do vulgar cidadão foge daquilo que é tão simples e natural.
Tive a oportunidade de investir em férias num país à distância de 18 horas de viagem. Um país apelidado a Lágrima da India, assolado até à pouco tempo pela guerra e com uma identidade muito própria.

Sri Lanka
Ainda há beleza nas coisas simples da vida. Beleza num país onde se diz que não há razão absolutamente nenhuma para se morrer de fome. Conforme disse o nosso guia, quando há fome, basta estender a mão: as bananas, os cocos, as mangas. Tudo à mão de semear, para quem quiser colher.

Uma simplicidade na beleza da natureza, uma procura constante das explicações desta vida no budismo. Um respeito pela pluridade da(s) fé(s).

Resumindo, um país Lindo, uma fauna maravilhosa, um povo simples e caloroso.

Um destino aconselhado!!!

29/10/10

alma de vida

Há um ano...

Hoje...

A vida tem destas coisas!!

13/10/10

"Devagarinho"

Quando chegaste, eras uma bola de pelo, um autêntico bébé, que a todos deixaste babados. Como mais um elemento da família, foste acarinhado, mimado e tiveste direito a todo o amor.
Cresceste, crescemos contigo.

A tua alegria quando chegávamos a casa estava escrita no teu olhar, na tua cauda.
A tua presença aconchegava, acalmava.

Cresceste, acompanhaste.
Ficaste mais velho.
Mais calmo, mais culto, mais casmurro :-).

Adormeceste pela última vez no local que mais gostavas, no calor de uma tarde de final de Verão.

Foste mas ficaste cá para sempre.

Obrigado pelo teu amor incondicional, pelas tuas lambidelas, pelas tuas traquinices, pela tua companhia, por todas as vezes que comeste "devagarinho".

Obrigado, Leça.

11/05/10

alma de veracidade

28/03/10

alma paciente

A música não será a melhor, mas as imagens dizem tudo.

25/03/10

alma de pensador


O tempo não pára. O relógio continua a contar as horas, os minutos, os segundos. Passam os dias, as semanas, os meses, os anos. E vamos festejando com aqueles que nos são queridos as datas de mais um aniversário.
Quis o destino que este ano me encontrasse fora do meu país natal, longe de tudo e de todos. Não custa, porque os temos a todos cá dentro.
E hoje fui confrontado com uma estátua de Rodin, numa exposição de rua na cidade de Zaragoza. Aquilo que eu não sabia o que era e que estou a aprender, dia após dia, a fazer - a pensar.
Mais vale tarde do que nunca.

18/01/10

alma de teatro

Tive o prazer de na última sexta-feira pisar o Teatro Nacional São João para apreciar Eunice Muñoz na peça "O Ano do Pensamento Mágico", a partir de um texto de Joan Didion e com encenação de Diogo Infante. Aconselho a todos que queiram (re)visitar Eunice Muñoz que aproveitem. Vale a pena.

 


E como sempre, trouxe comigo algo que nos faz parar para pensar:
"Amo-te mais do que apenas mais um dia."

30/12/09

alma de ano novo


"Aprenda como se fosse viver para sempre. Viva como se fosse morrer amanhã."

Mahatma Gandhi


Feliz 2010!!

13/12/09

alma de segurança

Ele há dias em que nos apetece "virar para dentro", aninharmo-nos debaixo da manta, sabendo que lá fora está um frio de rachar. Encontrar a melhor posição no sofá e termos "o poder" com o comando da tv na mão. Claro que, sempre que possível, com aquele alguém de quem gostamos ao lado. Alguém com quem partilhar o silêncio que não é de forma alguma incómodo, alguém que mesmo ao nosso lado respeita o nosso espaço. Há dias em que o egoísmo vem ao de cima e queremos esse alguém só para nós. Naquele momento, naquelas horas. É um egoísmo saudável, digo eu. E é saudável, porque da mesma forma que nos invade, também se afasta de uma forma natural, quando não é possível acontecer. Evoluímos para um estado em que viver não pode ser sempre da forma como o queremos. Evoluímos para um estado em que sabemos que a vida não se vive num só dia, de uma forma imediata.
Aprendemos que o sofá, a manta, o comando, continuam lá no dia seguinte. Aprendemos que se não é hoje, é amanhã ou depois.
Porque nos sentimos seguros do que sentimos.
E aprendemos que quem gosta de nós também continua lá no dia seguinte.

04/11/09

alma de rede


Sem rede. Às vezes sentimo-nos na corda bamba, balouçando de um lado para o outro e quando olhamos para baixo não temos rede. Aquela sensação de segurança que vai estando presente, mesmo que não o sintamos. A corda abana, dança, vibra e o nosso equilíbrio conquista-se a ferro e fogo.
Cada passo é uma conquista, um novo desafio, um palmilhar de centímetros, mais um pouco. É o poisar o pé com a certeza que não o podemos voltar a colocar atrás. Porque o caminho é para a frente, aprendendo com os passos dados atrás.
A rede, essa somos nós que a construímos. Muitas vezes nem damos conta que a temos. Porque é intrínseca, adquirida, construída. É onde muitas vezes caímos sem darmos conta e que nos empurra novamente para cima, com impulso, com vontade, com perseverança. São as nossas virtudes, os nossos valores, os nossos ideais, tudo aquilo em que acreditamos e que julgamos ser a verdade das coisas.
Mas há que mimar essa rede, alicerçá-la, cimentá-la. E cada vez que nela caímos aprendemos onde temos que melhorar, aperfeiçoar.

24/10/09

alma de recomeçar


A vida tem este dom intemporal de nos presentear com desafios, mesmo quando não estamos à espera. Parece que gosta de nos pôr à prova.
Sempre ouvi dizer que as pessoas não são medidas pelas vezes que caem, mas pela forma como se levantam (mais) uma vez a seguir a uma queda.

Parece um jogo constante, onde aprendemos sempre mais um pouco. Aprendemos quando temos a força suficiente para enfrentar mais um desafio. Parece muitas vezes um começar do zero, uma contagem crescente, um dia a seguir ao outro.
Ficamos mais fortes, mais seguros, conhecemo-nos melhor. E tornamo-nos pessoas melhores.
Perguntamo-nos de onde vem a força para tudo isto. Mas sabemos a resposta quando sentimos que ela vem de dentro de nós e que fazemos tudo por nós e não pelos outros. Somos nós próprios que nos motivamos, que nos damos alento, que nos fortalecemos.

E no meio deste processo todo, ficamos a gostar ainda mais de nós próprios e por consequência, somos melhores com tudo aquilo que nos rodeia.

20/10/09

alma de acontecimentos


"A vida de uma pessoa consiste num conjunto de acontecimentos no qual o último poderia mesmo mudar o sentido de todo o conjunto, não porque conte mais do que os precedentes mas porque, uma vez incluídos na vida, os acontecimentos dispõem-se segundo uma ordem que não é cronológica, mas que corresponde a uma arquitectura interna.
Uma pessoa, por exemplo, lê na idade madura um livro importante para ela, que a faz dizer: "Como poderia viver sem o ter lido!" e ainda: "Que pena não o ter lido quando era jovem!". Pois bem, estas afirmações não fazem muito sentido, sobretudo a segunda, porque a partir do momento em que ela leu aquele livro, a sua vida torna-se a vida de uma pessoa que leu aquele livro, e pouco importa que o tenha lido cedo ou tarde, porque até a vida que precede a leitura assume agora uma forma marcada por aquela leitura."


Italo Calvino, in "Palomar"

14/10/09


Quando regressamos a casa e nos desligamos do mundo exterior (quando tal é possível), inunda-nos um sentimento de pertença, de calma. Regressamos a casa, ao nosso castelo construído pedra após pedra, onde nos sentimos seguros, defendidos, acarinhados.

São os cheiros, as cores, os objectos estáticos que nos fazem mover os pensamentos. Aquele quadro que nos acalma, a segurança da porta que nos separa do mundo lá fora. Chegamos com as baterias descarregadas, utilizadas até à última gota de estamina, mas que nunca nos deixam ficar mal. É o silêncio que nos abraça e nos acarinha.

É o tão esperado regresso a casa.
É quando nos encontramos novamente depois de nos termos perdido durante todo o dia.

11/10/09

alma de arte





A minha alma ficou parva!
Guggenheim - Bilbao





02/10/09

alma de carácter

"O talento educa-se na calma, o carácter no tumulto da vida."
Johann Goethe

É a capacidade de aprender a ser uma pessoa melhor.
Às vezes leva tempo, é um processo.
Mas reconhecer que podemos evoluir já é uma vitória.
Principalmente quando o fazemos por nós e não pelos outros.


28/09/09

alma de agradecimento

Escrever. Usar as palavras como meio de transmissão do que nos vai cá dentro. Muitas vezes os pensamentos passam-nos na mente e não temos ninguém com quem os partilhar senão connosco próprios. Mas é também neste silêncio pessoal que nos vamos descobrindo, página após página, capítulo após capítulo. Somos ouvintes de nós próprios, damos o entendimento que queremos ao que escutamos dentro de nós. Escutamo-nos talvez como ninguém nos consegue escutar. Mas verdade seja dita que temos que nos escutar a nós próprios para nos conhecer melhor.
Somos uma imensidão de sentimentos, actos, omissões, verdades, valores. Antes de nos “dar-mos” a alguém, temos que ter a capacidade de sabermos quem somos, onde estamos e para onde queremos ir. Como alguém muito querido um dia disse, temos características. Aquilo que nos define, nos adjectiva. Qualidades, boas, outras menos boas. Aquilo que é intrínseco, que é inato, que não é adquirido. A nossa personalidade, os nossos valores, os nossos ideais, aquilo que nos vai definindo ao longo desta vida que é um acrescentar de experiências, de vivências. Realmente somos o que somos, o que fazemos. Tudo aquilo que fazemos fica connosco, define-nos, caracteriza-nos. Desde que acreditemos naquilo que fazemos e dizemos.
Sei quem sou. Sei onde posso melhorar. Sei as minhas qualidades. E sei o caminho a percorrer.
Tenho consciência que o melhor desta vida é vivê-la um dia de cada vez, cimentado naquilo que acredito e que melhor quero para mim. Primeiro eu, depois os outros. Não é uma questão egoísta, é mesmo saber o que é melhor para mim. Se antes pensava primeiro nos outros, hoje penso primeiro em mim, consciente que não é de forma alguma uma forma egoísta de pensar, mas sim uma forma realista.
Tenho consciência do que posso melhorar. Mas sempre que não é de um dia para o outro que mudo a minha forma de fazer as coisas. É um processo. Não sei a duração, sei que demora o seu tempo. Mas é um investimento no futuro. No meu futuro.
Mas não estamos sozinhos neste processo. Somos parte de um mundo, com mais pessoas, mais influências, mais comportamentos, mais alegrias, mais desilusões. Vivemos num mundo que não é só nosso. É de todos aqueles que co-existem connosco.
Tive a felicidade de conhecer alguém que hoje faz parte do meu mundo e, como não podia deixar de ser, faço parte do mundo dela. Mundos diferentes, que se aproximam onde as circunferências se cruzam e criam um mundo partilhado. Mundos diferentes, experiências diferentes, sentimentos diferentes. Um conhecer dia após dia, com conversas profundas, outras vezes mundanas, mas sempre, mas sempre, com um objectivo partilhado: conhecer, descobrir, partilhar.Isto de partilhar, descobrir o que está por debaixo do véu, é um desafio diário, desafiante, encorajador. É um descobrir constante, o virar das páginas uma após a outra, deliciado com a leitura, com o enredo, sempre ansiando que o fim não se aproxime. Aprendi a viver um dia após o outro. Tarefa difícil, para quem gostava de saber o futuro antes de ele acontecer. Mas aprendi.
E o que posso partilhar com todos aqueles que desconfiam do desconhecido, é que é uma experiência surreal, abençoada com as alegrias do momento e com o sentimento de estar, porque amanhã é um novo dia. Aprendi que todos nós podemos ser importantes, sem ter que marcar a diferença, sem ter que tentar ser diferentes. Sermos simplesmente nós já é uma vitória, sem que nos apercebamos disso. Mas custa chegar a este ponto.
Assumo que gosto de fazer a diferença. Mas mais assumo que fazer a diferença só por ser quem sou é um prazer acima de qualquer um. É uma vitória inigualável só saboreada com esta introspecção à qual me dou o prazer de fazer. E quão importante é.
Agradeço a esta pessoa que deixei (e deixou) entrar na minha vida (dela) sem saber como ou porquê. Não será um “deixei”, mas sim um “ir conhecendo”. Não forcei, não indiquei, deixei correr. Aceitei, pensei, correspondi. E muito feliz me sinto por isso. Por muito que tenha a ver comigo, da forma como evoluí enquanto ser humano, não posso deixar de lhe agradecer a forma como me recebeu, entendeu, compreendeu e, acima de tudo, como me deixou perceber o quanto importante é eu ser eu próprio, sem defesas ou malabarismos. Há que reconhecer quando alguém faz a diferença na nossa vida. Quando contribui para o nosso desenvolvimento enquanto Pessoa, Individuo, Ser Humano. Independente do dia amanhã, fica aqui o meu agradecimento público a Alguém que fez (faz) a diferença na minha vida.
Um dia de cada vez, eu sei.

Obrigado, E.

23/09/09

alma de música

Escutamos tantas músicas ao longo da nossa vida. Umas ficam na memória, outras caem no esquecimento. Umas acompanham-nos sempre, recordamo-las procurando no baú e revivemo-las. Há aquelas músicas que nos dizem muito. Que nos fazem ir atrás no tempo, procurar nas recordações de tempos passados.
E há aquelas músicas que fazem parte do nosso íntimo, que nos aquecem, que nos fazem sorrir. E há também aquelas músicas que só passado muito tempo fazem sentido no seu todo. Não é a letra, não são os sons, não é o artista – é tudo junto. Há momentos em que compreendemos o porquê da importância dessa música.

Tem tudo a ver quando todas as partes encaixam e a música no seu todo faz TODO o sentido.

Naquela noite muita coisa se encaixou, fez sentido, teve importância. Foi um sentimento de entrega, de encaixe, de compreensão do íntimo, de revelação.

Não sei como descrever mais. Mas sei as palavras que disse:
“Percebo hoje a razão da importância desta música na minha vida”;

E sorri para ti.

Moby @ Parque da Cidade (Porto) - 12/09/2009

17/09/09

a alma também sonha

Há alturas em que releio o que escrevi. Muitas vezes surpreendo-me, outras rio-me, outras até choro. Alturas também há em que me revejo novamente. E sinto-me feliz com isso. Sinto que por muito que possa ter evoluído (ainda bem), outras coisas há que permanecem, fazem parte de mim, de quem sou, em que acredito, que fazem parte da minha alma. Tenho alma de sonhador, assumo. Já sonhei mais que agora. Sonhos loucos, desejos, loucuras.
Hoje continuo a sonhar. Sonhos mais ponderados - sei que não é possível mudar o mundo - mas sonhos meus.
Gosto de mim, gosto dos meus sonhos, gosto de sonhar. Faz parte de mim. É inato, está dentro de mim.
E gosto de partilhar os meus sonhos.


"Sonhei um dia que havia de ser para sempre, daquela forma única e tão diferente. Sonhei um dia um sonho meu onde a simplicidade das coisas se sobrepunha a tudo e todos. Sonhei um dia ter o que nunca tive. Um sonho, uma imagem, uma realidade. Sonhei, como ainda sonho, chorar de felicidade e deixar as lágrimas regarem o meu trilho.

E sonhei e sonho todos os dias que não me roubem este meu sonho."

Maio de 2007

12/09/09

alma de coisas simples

Já não é a primeira vez que falo das coisas simples, dos pequenos gestos. Já tive quem aqui comentasse a dizer que não há coisas simples. Realmente não as há assim "do pé para a mão". Não queiram que tudo vos caia aos pés, já feito, formatado e "prêt a porter". Há que investir, deixar a rotina cair por terra e fazer a diferença. Connosco próprios e com os outros. A diferença somos nós, cada um por si, que a faz. E para tal, muitas vezes é deixar o coração falar, é deixar a fantasia se instalar por breves momentos, é dar asas à imaginação. É sentirmo-nos felizes no que pensamos e queremos fazer - e fazê-lo.

E se pensarem em muitas das vezes em que se sentiram verdadeiramente felizes (e também fizeram alguém feliz), não eram coisas simples?


"Nunca são as coisas mais simples que aparecem quando as esperamos. O que é mais simples, como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se encontra no curso previsível da vida. Porém, se nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos nos empurrou para fora do caminho habitual, então as coisas são outras. Nada do que se espera transforma o que somos se não for isso: um desvio no olhar; ou a mão que se demora no teu ombro, forçando uma aproximação dos lábios."

Nuno Júdice

11/09/09

alma doce


Hoje encheram-me a alma com um (doce) sorriso doce.
Pequenas coisas, pequenos gestos.
Simples.

09/09/09

alma de espera

Espero-te no beijo saboreado e guardado no sabor dos lábios. Espero-te na minha imaginação de criança e homem, nos sonhos delicados que me acordam a meio da noite. Espero-te na escuta da porta de casa, no barulho da chave que acaba por não abrir. Espero-te no sorriso solitário entre quatro paredes, onde sorrio para mim sem razão aparente. Espero-te ao virar da esquina de um cruzamento que não consigo alcançar. Espero-te de mão estendida ao luar, tentando tocar a lua. Espero-te nos primeiros raios de sol que me aquecem a face ao acordar. Espero-te no pôr-do-sol no horizonte. Espero-te no final de mais um capítulo de um qualquer livro. Espero-te no pontão do rio que ruma ao mar. Espero-te na crista da onda que bate na praia.

Espero-te (e respeito-te) no abraço que tenho para te dar.

alma paciente

Os ponteiros do relógio não param. De uma forma persistente continuam a marcar o tempo, a indicar que o tempo não pára. Quer queiramos ou não, os ponteiros avançam no tempo, marcam o tempo, definem a linha condutora. Hora a hora, minuto a minuto, segundo a segundo.
Há alturas em que observamos os ponteiros e apercebemo-nos que cada segundo, minuto, hora que passa, é mais um momento que passa na nossa vida. Quando damos conta. Outras vezes há em que nem nos apercebemos disso. O tempo passa a correr, dizemos nós. Como areia entre os dedos, foge-nos sem nos dar oportunidade de o agarrar. Aquela velha frase “Ò tempo volta para trás” nunca terá sentido. Não é possível. O que foi, já era. Passado perfeito, a caminho do presente imperfeito.

Com o tempo aprendemos a ser pacientes. Primeiro connosco próprios. Aprendemos que a paciência não tem que ser uma causa para nervosismos, esperanças perdidas ou devaneios. Aprendemos que a paciência pode transformar-se numa qualidade, numa característica, numa mais-valia. Aprendemos que só temos a acrescentar valor na nossa vida em sermos pacientes. Aprendemos que se desenvolvermos paciência connosco próprios, podemos estar melhor com a nossa alma, com a nossa consciência. Podemos conhecermo-nos melhor. Podemos evoluir.Ter paciência, sermos pacientes, também nos ensina a sermos mais calmos com o que nos rodeia. Com as pessoas, com o meio, com as vicissitudes da vida. Aprendemos a contar até 20 em vez de até 10. Aprendemos a tolerar, a respeitar. Aprendemos a sermos melhores para com os outros.


(Aprender a) Ser paciente é uma arte. Como qualquer arte requer empenho, imaginação, aperfeiçoamento, dedicação. Investir muitas horas, minutos, segundos. Continuamente. Muito do que sentimos, ansiamos e vivemos pode-nos tornar menos pacientes. Porque muitas vezes não depende de nós. Mas depende de nós sermos pacientes.

Depois de conseguirmos aprender a ser pacientes connosco próprios, sermos pacientes com os outros é também uma forma de respeito.



paciência
s. f.
1. Virtude da pessoa paciente.
2. Sossego com que se espera uma coisa desejada.
3. Perseverança.

04/09/09

alma de lua


02/09/09

alma de beijo


Há uns tempos atrás, num texto aqui colocado, descrevi um sonho que tive. Um sonho de um beijo. Transcrevendo parte do que escrevi, - "Não sei dizer onde, quem, quanto tempo, como. Só sei o quê. Dei comigo a sonhar com um beijo. Mas que beijo – diga-se com justiça!".

E tinha sido um beijo. Um sonho de beijo.
Sonhar todos sonhamos. Às vezes a dormir, às vezes acordados. Muitas das vezes não percebemos o porquê dos sonhos, outras nem os recordamos. Mas há aqueles sonhos que ficam, que perduram, que nos acompanham na realidade. E muitas dessas vezes sonhamos acordados: "Ai aquele sonho..."
Nada mais bonito, inesperado e inspirador existe quando um sonho se torna realidade, mesmo quando nos apercebemos mais tarde e não no momento.
Trago comigo a recordação de um beijo. "Mas que beijo, diga-se com justiça!".

Não é só o acto físico em si. Esse todos nós o sabemos (uns mais que os outros). Mas tudo aquilo que vai além do acto de beijar.
O sentimento, as borboletas no estômago, o toque, o abraço, o tempo que pára, a entrega, o palpitar do coração, a partilha.

Trago comigo a recordação de um beijo.
Um beijo sonhado tornado realidade.

31/08/09

alma (in)tolerante

Há dias assim. Em que os nossos níveis de tolerância não estão tão altos como desejamos; altos o suficiente para nos defenderem das ameaças que pairam à nossa volta. Fortes o suficiente que elevam as ameias do nosso castelo, onde nada transpõe.
Há dias assim, em que as nossas defesas fraquejam, os nossos exércitos deitam por terra as espadas, os escudos, as fortificações tão corajosamente construídas.
Há dias em que nem sequer nos reconhecemos. Olhamos ao espelho e observamos uma figura, um estranho, um olhar longínquo.
Recorremos àquela força que está escondida dentro de nós, a última lágrima salgada que nos ajuda a afogar o que nos trai.
Há dias assim. Em que berramos ao mundo e ele não nos ouve, não nos escuta.
Há dias assim, em que parecemos fortes e por dentro tudo respira fraqueza.
Há dias assim.

E nestes dias nada mais importante e rico que pensar que um dia vem de cada vez. E da mesma forma que vem, vai.

E amanhã é mais um dia.
Um dia de cada vez.

Obrigado, amigos.

28/08/09

alma de um dia de cada vez (2)

O cheiro do rio, o quente do pôr-do-sol, o(s) riso(s), o(s) sorriso(s), as palavras, o toque.
Tudo neste dia, naquele local.
Foi hoje, será sempre hoje. É um dia, a seguir ao anterior, antes do próximo. Viver o dia no seu todo, no seu esplendor até ao fim.
Amanhã será mais um dia, mas este é (foi) um dia.
De cada vez.

E será sempre um dia de cada vez.

26/08/09

alma de aprender a desligar

Quantos de nós não sabemos desligar ao final de um dia de trabalho? Quantos de nós levamos o trabalho connosco para onde quer que vamos, depois de um final de dia de trabalho? Realmente passamos imensas (demasiadas) horas no trabalho e quando damos conta, estivemos a desprezar o nosso tempo, aquele que é nosso, de mais ninguém. Bem sei que todos nós, além do trabalho, temos família, uma casa de família onde regressar, imensas outras coisas para fazer, tudo e mais alguma coisa. E entramos na rotina, todos os dias a mesma coisa, sempre a aguardar o final da semana, aquele tempo de ócio onde às vezes nem sabemos o que fazer com o tempo todo à disposição.
Mas há alturas em que temos que conseguir desligar, fazer "o desmame" do dia cheio de preocupações, de solicitações, de contas de somar e subtrair, dos telefonemas (dos) chatos, das perguntas a responder, das pequenas vitórias, das lamentações, dos objectivos, etc, etc, etc....
A mim era-me difícil, assumo. A entrega ao trabalho era de tal forma, que não o vivia, fazia-o integrante da minha vida 24 horas. Viver em função do trabalho, viver para o trabalho. O resto vinha depois, caso houvesse tempo.


Erro crasso!

Depois de assumir que realmente é verdade que "ninguém é insubstituível", depois de chegar à conclusão que o mundo não pára sem a minha presença e, acima de tudo, consciencializar-me que eu sou importante e que não preciso do trabalho para o ser, decidi enfrentar o desafio de conseguir aprender a desligar.
Desligar e ter tempo para mim, sem mais ninguém. Porque há quem pense que todo o tempo disponível tem que ser partilhado com os outros, seja quem for.
Há que ser egoísta, gostar muito de si próprio e usar esse tempo. Com conta, peso e medida. Há que pensar "para dentro", há que rever o passado recente, há que pensar em nós, sem trabalho, sem os outros.
O nosso mundo é tão grande e temos sempre muito a descobrir dentro de nós. Muitas vezes viramos a cara e não queremos saber.
Partilho convosco: queiram sempre saber mais de vós próprios. É um caminho de descoberta, com mais ou menos obstáculos, um caminho do conhecimento.

Somos tanto cá dentro que nem nos apercebemos. E quanto mais nos conhecemos, mais gostamos de nós.

Vá, tirem um tempo, desliguem, pensem.
E se for com um fino e um prato de tremoços, ainda melhor.


23/08/09

alma de querer

Não sei o que te vai na alma. Não conheço o teu pássaro da alma. Nem quero conhecer, é teu.
As tuas gavetas são tuas, só tu as conheces.
Sei que não quero ser mais uma gaveta na tua alma. Não quero ser uma recordação, um momento, uma saudade.



Quero ser a realidade, o momento em si só, a vivência. Quero fazer parte, quero ser parte. Quero fazer a diferença, quero ser saudade perpétua, não uma saudade esquecida.
Quero estar presente, quando assim me quiseres. Quero estar, fazer parte, ser algo que acrescenta, que traz valor.
Quero ser razão de pensamento, de vontade de ter, de vontade de rever.

Quero ser razão de pensar, razão de sentir.
Quero ser razão de respeito, pelo respeito que te tenho.



Quero ser uma pedra no castelo que vais construir, não mais uma pedra, mas uma pedra. Não a mais importante, mas que seja importante para ti.


Quero que vejas a minha alma, porque eu quero partilhá-la contigo.

alma de libertação


Escrevam, peguem numa caneta, numa folha de papel e escrevam. Deitem cá para fora o que vos vai na alma. Libertem tudo aquilo que vos faz sentir felizes, tristes, tudo aquilo que crêem que faz a diferença na vossa vida.
Escrevam, libertem a alma que isso vos fará sentir livres. Escrevam cartas, como antigamente. Preencham folhas e folhas de papel, dobrem-nas atenciosamente e coloquem-nas dentro de um envelope. Escrevam a morada do destinatário e façam aquele gesto que há muito não fazem - deixem cair a carta no marco do correio, ouçam um som que faz parte do passado e que teima em não ser recordado.
Escrevam aos vossos amigos, aos vossos amados, à vossa família. Esqueçam os SMS, os mails, as chamadas de telemóvel. Façam o que aprenderam a tanto custo. Naquelas aulas intermináveis a declamar os verbos, os substantivos, os predicados. A leitura em voz alta, as cópias, os ditados.
Escrevam, deitem cá para fora as palavras por dizer, os sentimentos recalcados, os amores inesquecíveis, os ódios, os carinhos. Tudo aquilo que um dia ficou por dizer que vos está atravessado na garganta.
Eu acabei de escrever uma carta. Algo que não fazia há 9 anos, acreditem. Páginas escritas. Prosa do fundo do coração, com o cunho pessoal da caligrafia. São páginas que vão chegar a alguém. Com um selo colado, um endereço escrito. São páginas escritas à moda antiga, sem corrector, sem dicionário "on-line". São páginas escritas do fundo do coração, sem censor ou corrector ortográfico (bato palmas aos meus professores de português).
Escrevam, recordem o que de bom e libertador persiste na escrita pura e dura, de caneta em riste, onde a tinta descreve os nossos sentimentos, as nossas angústias.
Escrevam, digam que amam ou odeiam, não tenham medo. Palavra escrita é sinónimo de franqueza, de verdade.
Quem lê escuta, guarda, processa.

E também sorri.

alma de estar

É isso aí!
Como a gente achou que ia ser
A vida tão simples é boa
Quase sempre
É isso aí!
Os passos vão pelas ruas
Ninguém reparou na lua
A vida sempre continua


Eu não sei parar de te olhar
Eu não sei parar de te olhar
Não vou parar de te olhar
Eu não me canso de olhar
Não sei parar
De te olhar

É isso aí!
Há quem acredite em milagres
Há quem cometa maldades
Há quem não saiba dizer a verdade


É isso aí!
Um vendedor de flores
Ensinar seus filhos a escolher seus amores

Eu não sei parar de te olhar
Não sei parar de te olhar
Não vou parar de te olhar
Eu não me canso de olhar
Não vou parar de te olhar

É isso aí!
Há quem acredite em milagres
Há quem cometa maldades
Há quem não saiba dizer a verdade


É isso aí!
Um vendedor de flores
Ensinar seus filhos a escolher seus amores

Eu não sei parar de te olhar
Eu não sei parar de te olhar
Não vou parar de te olhar
Eu não me canso de olhar
Não vou parar de te olhar

Damien Rice


Alma com medo de falar de Amor

As palavras acobardam-se por antecipação, não se materializam em som. Têm receio de tocar o silêncio que paira no ar. Têm receio de matar o silêncio como uma flecha veloz, atroz.
As palavras estão escritas a ferro e fogo nos sentimentos que guardam e envolvem o coração. Pairam no olhar, no toque, no sorriso. Mas não saem, não são ditas. Mas são sentidas. E murmuradas na segurança das quatro paredes.
O olhar protege as palavras, mas não as esconde. Os olhos são o espelho da nossa alma. Traem-nos sempre quando menos esperamos. Falam mais que palavras.

Peço ao vento que as leve, às palavras. Mas elas continuam por ser ditas.

Um dia serei eu o vento.

19/08/09

alma de um dia de cada vez


Cada dia sem gozo não foi teu
Foi só durares nele. Quanto vivas
Sem que o gozes, não vives.

Não pesa que amas, bebas ou sorrias:
Basta o reflexo do sol ido na água
De um charco, se te é grato.

Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas
Seu prazer posto, nenhum dia nega
A natural ventura!

Odes / Ricardo Reis

17/08/09

alma de saber esperar

A espera não é agonia, quando sabemos o que nos espera.
A espera não dói; é confortada com o reencontro.
A espera gera mais espera e alimenta. Alimenta o coração por quem se espera.
A espera faz parte do todo que é gostar. E a espera cultiva-se. Há que saber esperar. Porque a espera traz-nos alegria, enche-nos o coração. Traz-nos um sabor doce à boca, traz-nos as memórias de que sabemos ser reais. Memórias que não fazem parte do passado, mas sim do presente, memórias que nos fazem querer viver ainda mais para recordar.
A espera - saber esperar - é um dom. Não é inato, é adquirido. Vai-se requintando ao longo do tempo, com toques de ternura, com toques de apreço.


Saber esperar pode ser sinónimo de respeito.
Saber esperar é uma forma de gostar.


16/08/09

alma de dedicatória



Uma colher de gelado faz milagres.

Para ti, E.

alma de sonho

Não me costumo lembrar do que sonho. Às vezes acordo cansado como se tivesse caminhado longas distâncias. Mas não me recordo por onde andei, o que vi, o que visitei. Outras vezes acordo relaxado, descansado, como que, se sonhei, então devo ter passado por um spa, um retiro, algo assim. E outras vezes há em que não sonhei, não adicionei nada ao meu subconsciente, não vagueei no que por aqui anda fechado, protegido.

Mas uma destas noites sonhei.

E acordei com o meu sonho. Não sei dizer onde, quem, quanto tempo, como. Só sei o quê. Dei comigo a sonhar com um beijo. Mas que beijo – diga-se com justiça! Tão real foi que já acordado ainda movia os lábios, tocando outros lábios imaginários, sentindo o toque. Não era um beijo qualquer, era o Beijo! De uma simplicidade tal, mas de uma sensualidade atroz que arrepiava. Um beijo que envolvia respeito, partilha, desejo, tudo aquilo que ansiamos num beijo. Num beijo que um dia queremos partilhar com alguém.


Não costumo lembrar o que sonho.
Mas este sonho é de recordar.

alma de dolce farie niente

O domingo é o dia “(in)gricola” – expressão que ouvi muitas vezes durante a minha infância. É a actividade agrícola “virada” para dentro. Lavrar as terras do sofá, ver as coisas a crescer.
Há quem lhe chame também o “dia da pantufa” – expressão ternurenta porque a palavra pantufa faz lembrar (pelo menos a mim) pijamas de algodão, extremamente confortáveis e que se moldam ao corpo, faz lembrar os lençóis da cama que ficam por fazer, faz lembrar a manta no sofá, faz lembrar que o domingo tem a capacidade de nos fazer esquecer que existem relógios, afazeres, rotinas e tudo aquilo que nos faz tirar do sério durante a semana.
Há quem aguarde o domingo para (re)lembrar o cheiro da naftalina nos armários quando vão buscar aquele fato ou peça de roupa comprada especialmente para o domingo. E usam o domingo para arejar a roupa e passeios intermináveis ao longo das marginais, pai, mãe, irmão, irmã, sobrinha, vizinhos e tudo mais que couber na ilusão do passeio em família. E são hordas de gente todos a rumar às capitais do consumo, ruas sem becos com lojas e lojas e lojas, com entrada gratuita. São as montras a mostrar a última moda, os empregados com cara de tédio, sempre prontos a perguntar “Posso ajudar?” – hipócritas!
E há quem aguarde o domingo como aquele dia do dolce farie niente. O traje obrigatório é o tal pijama de algodão, calçado da última moda – a pantuja que nos aquece os pés. Os passeios são feitos da cama para o sofá, incursões erróneas à cozinha com visitas estratégicas ao frigorífico, quando a fome aperta. O comando da televisão parece um comando de uma consola, tantas vezes são apertados os botões na procura insaciável daquele filme ou daquela série.
É preciso tempo e ainda mais tempo para fazer passar aquele sentimento de culpa que nos invade por realmente não estarmos a ser produtivos – é verdade, acontece! Mas depois de superada essa prova de uma só vez, não há nada que nos faça parar.

É bom, porra!

É bom o dolce farie niente.

15/08/09

alma de diversão

almas ao sol da meia noite


Quando o sol se põe é sinal para muitos de regressar a casa, é sinal que o dia quase está para acabar. É um relógio de parede que nos vai dizendo que o tempo passa, meticulosamente; que não pára na contagem dos segundos, minutos, horas. E é assim dia após dia.

Embora na nossa latitude o fenómeno "sol da meia noite" não ocorra, há alturas em que parece que realmente acontece. E o sol fica suspenso a acompanhar tudo aquilo que ocorre.

Esses momentos são únicos, simples e bonitos.


"Sol da meia-noite é a designação comum para o fenômeno que ocorre nas latitudes acima de 66º 33’ 39" N ou S, ou seja, para além do círculo polar ártico ou do círculo polar antártico, quando o Sol não se põe durante pelo menos 95 horas seguidas. Em latitudes superiores a 80 graus, o Sol não se põe por mais de setenta dias sem o verão, ou seja, não há noites durante mais de dois meses."

14/08/09

à alma dos meus amigos


Escolho os meus amigos não pela pele ou por outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero o meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e aguentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.

Quero-os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho os meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta.
Não quero só o ombro ou o colo, quero também a sua maior alegria.
Amigo que não ri connosco não sabe sofrer connosco.
Os meus amigos são todos assim: metade disparate, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis nem choros piedosos.

Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade a sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos, nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice.
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.

Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois vendo-os loucos e santos, tolos e sérios, crianças e velhos,nunca me esquecerei de que a normalidade é uma ilusão imbecil e estéril.

Loucos e Santos
Oscar Wilde

13/08/09

alma feliz



Passar naquele local que é especial, pegar na mão do nosso "mais que tudo" como da primeira vez que o fizeram (ainda se recordam?), dar um (longo) abraço sentido, vestir aquela peça de roupa que já tem anos, mas que tem aquele toque especial, escutar uma voz amiga, olhar com ternura para uma criança, perder de vista o pôr-do-sol, ver um casal idoso a passear de mão dada, folhear um álbum de fotografias, "rapar" o tacho, escutar aquela música, adormecer em lençóis frescos, acordar e ser acordado (com) por um leve beijo, comer uma torrada ainda com a manteiga a derreter, ouvir o mar no silêncio da noite, ler um texto do escritor favorito, escolher aquele filme no meio de tantos outros, saborear um bom vinho, .........

.......e tantas, tantas outras situações.
Já viram o quão fácil e simples é conseguir SORRIR?
Basta querer!

Façam o favor de sorrir!

alma iluminada

Instala-se, cresce cá dentro sem sabermos bem o que é. Um nervosinho miúdinho, aquele sentimento de borboletas no estômago. Damos por nós a sorrir por tudo e por nada e o todo tem muito mais sentido.

Acordar parece mais fácil (é só mesmo ilusão, nada mais). A mente tem tendência a vaguear mais que o habitual e até a distracção mais simples parece ser a coisa mais natural do mundo.

E tudo aquilo que nos rodeia parece mais vivo, mais bonito, mais colorido.

O retorno a casa, sempre um dos melhores momentos do dia, tem ainda mais importância. Porque é nesse recolher que abraçamos os nossos pensamentos, os nossos desejos, que nos rimos e até falamos sozinhos, um diálogo com a consciência.

Mantemos o nosso individualismo, a nossa redoma, o nosso canto. Mas tudo fica mais permeável, as portas que sempre estão fechadas ficam entreabertas, deixam passar uma luz que nos alumia a alma.

11/08/09

alma de primo

Hoje escrevo-te do fundo das minhas recordações. Nunca te escrevi, nunca traduzi em palavras tudo aquilo que me fizeste sentir desde que partiste. Depois da tua partida, incrédula, repentina, atroz, ainda te visitei uma ou duas vezes, na esperança de escutar um "até logo" ou "vemo-nos no próximo fim-de-semana?". Não ouvi.
Foste, fugiste, partiste e levaste parte de mim contigo. Porque tu eras parte de mim. Eras o amigo distante que se aproximava sempre quando precisei de ti. Eras o meu terceiro irmão. Eras o parceiro de conversa, leitura, música, café, e tantas outras coisas. Nada escondiamos um do outro; falavamos, escutavamos, discutiamos, partilhavamos. Não havia tabus no que se tinha de dizer. Podiamos estar longe tempos e tempos e no dia em que nos reuniamos novamente, era como se a breve despedida tivesse acontecido no dia anterior.
Contigo aprendi o verdadeiro significado da amizade, na sua simplicidade mais extrema. Dar e receber sem cobrar, sem julgar.
Desde que partiste sem dia ou hora marcada, algo se fechou cá dentro. Hoje, passados muitos anos (demasiados talvez) reconheço que o luto está feito, está marcado, está fechado.
E só me apercebi disto numa conversa aberta, franca, honesta. Poucas vezes falei de ti a outros, como que a guardar a tua recordação só para mim. Naquela noite falei de ti no passado.

Sim, só reparei nisso hoje.

Tantos anos passados e contigo aprendi as coisas simples da vida. É um facto que tenho alguma dificuldade em fazer compreender isto "das coisas simples" às pessoas.
Eu sei bem o que é. Tu também o sabias.

O teu sonho era pregar uma rasteira a um carro.
Naquele dia em que partiste alguém disse que foi a vida que te pregou uma rasteira.

alma de pequenos tesouros 2

"Lembro-me agora que tenho de marcar um encontro contigo, num sítio em que ambos nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma das ocorrências da vida venha interferir no que temos para nos dizer. Muitas vezes me lembrei de que esse sítio podia ser, até, um lugar sem nada de especial, como um canto de café, em frente de um espelho que poderia servir de pretexto para reflectir a alma, a impressão de fim de tarde, o último estertor do dia antes de nos despedirmos, quando é preciso encontrar uma fórmula que disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É que o amor nem sempre é uma palavra de uso, aquela que permite a passagem à comunicação mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale, de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio ser, como se uma troca de almas fosse possível neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde, isto é, a porta tinha-se fechado até outro dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que é também a mais absurda, de um sentimento; e, por trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas, que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros."

Nuno Júdice
Carta (Esboço)

alma de pequenos tesouros

"Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno
e quase ia morrendo com o receio de que ele não
te coubesse no dedo."

Jorge de Sousa Braga

alma de verdade escondida

Hoje, ao folhear o jornal "I", li um artigo interessante. Fala de um blogue de nome "shiuuuu" onde todos nós, anonimamente, podemos revelar segredos.
Depois de uma visita, penso como será possível guardar alguns dos segredos lidos durante uma vida inteira? Há segredos e segredos, bem sei. Muitas vezes são omissões, nada de especial, mas outros são realidades que podem mudar o sentido da vida. Carregar tais segredos pode corroer por dentro, retirar-nos o ar que nos rodeia para respirar. Muitos dos exemplos expostos no blogue em questão fazem-me ficar de boca aberta, por quanto desespero podem criar.
Todos temos segredos. Alguns esquecidos "lá para trás da memória", onde ficam pousados a descansar, a aguardar uma lembrança.
Aprendi que segredos podem ser uma forma de mentira, de desrespeito. E também aprendi que custa muito às vezes dizer a verdade, mas que alivia. Alivia e muito. A expressão "carregar a cruz" nunca teve tanto sentido. Como também "tiraste-me um peso de cima".
Dizer a verdade depura-nos, faz-nos sentir mais leves.

10/08/09

alma de conhecer

Não há cartas, mensagens, pombos-correio, telefonemas ou seja o que for que se equiparam a uma boa conversa, olhos nos olhos, à volta de uma mesa.
O prazer de escutar, mastigar e reter as palavras ouvidas, perguntar, rir, chorar. O prazer de falar, contra-argumentar.
Nada como acrescentar às palavras os gestos, os olhares, os comportamentos.
Nada como deixar o tempo perder-se a si próprio, quase que parar o tempo e continuar como se nada fosse.
Sermos nós próprios sem defesas, barreiras, mentiras, omissões.

É bom viver a vida exactamente como ela é - autêntica.

E se lhe juntarmos um(ns) copo(s) de cerveja, melhor ainda.
Um brinde à amizade (e à descoberta).



09/08/09

alma recuperada

Hoje tirei tempo para recuperar textos, citações; percorri o meu tão adorado computador e fui à procura de textos perdidos, uns meus, outros "roubados" com toda a distinção a quem os escreveu. Mas são textos, passagens que nos ficam para sempre guardados nas gavetas da nossa alma. De vez em quando é o nosso pássaro da alma que abre as gavetas, outras vezes somos nós próprios que as abrimos. Muitas vezes com lágrimas nos olhos, outras com um sorriso que nos invade o rosto.

Ele há cada coisa!

alma de súplica

Ao vento suplico que te traga adormecida
Para o conforto dos meus braços
Para te observar a dormir
E beber nos meus sentidos as linhas do teu rosto

Quero-te tanto
É um tormento que me adoça a alma
Cada instante do dia que passa.
Uma dor que repousa no meu coração.
As lágrimas que choro em silêncio são gritos
Do meu desespero por ti.

Ao sol suplico que ilumine o meu ser com a tua luz
Que me aqueça com o teu olhar lindo e quente
Que te traga inteira

As minhas lágrimas gritam o teu nome
E ao vento suplico que tas faça chegar
Ao mundo inteiro suplico
Que te mostre a verdade em mim

Desejo que entendas nesta minha falta de palavras
Neste meu gesto sem jeito
Na tremura da minha voz
O sentimento que me percorre
E que me faz viver e correr atrás de todos os momentos que sinto tão vivos.

Desejo que entendas
Que te amo com a força deste mar que abalroou as muralhas
Do porto onde me refugiei, onde me escondi das intempéries.
Desejo que entendas
Que te amo, te cuido, te beijo
Em cada segundo, em cada inspiração,

Suplico ao vento, ao sol, à chuva, às estrelas
A todas as forças da natureza
Que te dêem a força, a vontade e o alento

Suplico ao teu ser
Tão verdadeiro, recto e ardente
Que encontre na palavra perdão
Um amor que quer viver.

Recuperado algures, escrito há uns anos

alma de aprender

"Depois de algum tempo aprendes a diferença, a subtil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma.

Aprendes que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança.
E começas a aprender que beijos não são contratos, presentes não são promessas.
E não importa o quão boa seja uma pessoa, ela vai ferir-te de vez em quando e precisas perdoá-la por isso.
Aprendes que falar pode aliviar dores emocionais.
Descobres que se leva anos a construir confiança e apenas segundos para destruí-la, e que podes fazer coisas num instante, das quais te arrependerás para o resto da vida.
Aprendes que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias. E o que importa não é o que tu tens na vida, mas quem tens na vida.
Descobres que as pessoas com quem mais te importas na vida, são tiradas de ti muito depressa; por isso, sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas; pode ser a última vez que as vemos.
Aprendes que paciência requer muita prática.
Aprendes que quando estás com raiva tens o direito a estar com raiva, mas isso não dá o direito de seres cruel.
Aprendes que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém. Algumas vezes, tens que aprender a perdoar-te a ti mesmo.
Aprendes que com a mesma severidade com que julgas, tu serás, em algum
momento, condenado.
Aprendes que não importa em quantos pedaços o teu coração foi partido, o mundo não pára para que o consertes.
E, finalmente, aprendes que o tempo, não é algo que volta para trás.

PORTANTO, planta o teu jardim e decora a tua alma, ao invés de esperares que alguém te traga flores. E percebes que realmente podes suportar... que realmente és forte, e que podes ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais. E que realmente a vida tem valor, e que tu tens valor diante da Vida!

E só nos faz perder o bem que poderíamos conquistar... o medo de tentar!"

William Shakespeare

alma de tentar ser feliz?

O que é a felicidade? Para um esclarecimento justo e equitativo podemos sempre consultar o dicionário. Temos assim uma definição estudiosa, objectiva e assertiva da palavra.

“do Lat. felice
adj. 2 gén.,
Ditoso, afortunado; satisfeito, alegre; abençoado, bendito; bem imaginado; bem combinado, acertado; bem sucedido; próspero, que tem muita sorte;”

Mas será que chega lermos a sua definição? Sermos imparciais e insensíveis na leitura de tal palavra?

Porque não chega percebermos o seu significado. Para percebermos realmente a felicidade temos que a sentir, nem que seja por um dia, uma hora, um momento.

Definir o que é a felicidade sem a sentirmos é o mesmo que fazermos promessas sem as cumprir. É o mesmo que deliciarmo-nos com um chocolate e não lhe sentirmos o sabor. É o mesmo que dar um beijo sem entrega.

Segundo a opinião da classe médica (a qual eu respeito), a felicidade pode ser provocada pela adrenalina: “Como neurotransmissor, a adrenalina é libertada em situações de stress físico ou mental, actuando ao nível do sistema nervoso simpático: coração, pulmões, vasos sanguíneos, órgãos genitais, etc. A adrenalina liga-se a um grupo específico de proteínas, os receptores adrenérgicos, provocando o aumento dos batimentos cardíacos, dilatação dos brônquios e pupilas, vasoconstrição, suor,etc.”

Isto é tudo muito bonito e de fácil digestão. Mas afinal o que é a felicidade? Claro, além de ser uma possível causa deste tão pomposo neurotransmissor?

Se algum dia…

…sentiram o corpo a levitar, a voar baixinho, como se conseguíssemos caminhar sobre a água, que no lugar dos sapatos sentem umas pantufas, que só conseguem apreciar beleza em tudo que observam, que o sorriso teima em nascer no rosto ao amanhecer e que só se deita com o pôr-do-sol, que apetece comprar flores só pelo prazer de olhar para elas, que o café até está bem tirado (e nos outros dias sabe sempre a água choca), que o vizinho até é um gajo simpático (mesmo que esteja a gritar com a mulher), que a sogra (para quem a tem) até é uma senhora querida, simpática e sempre pronta a ajudar, que os amuos da pessoa querida são mimos disfarçados, que os berros do chefe parecem a 5º sinfonia de beethoven, que a cara carrancuda da senhora da repartição de finanças é um cartão de visita, que o poio de m… que pisámos até nos vai dar sorte, que o semáforo nunca mais passa a verde porque até tem o direito de descansar no vermelho, que as contas ao fim do mês são postais de natal, que o despertador às 5,30 da manhã é o chilrear de um pássaro, que a multa do polícia foi um presente de anos, que os quilos a mais no espelho são um toque de classe, que o pneu furado não é mais que o nosso carro a pedir atenção, que a fila no supermercado não é mais que a vontade das pessoas confraternizarem, …

…então sabem o que é a felicidade!

Mas da mesma forma que felicidade é uma possível causa do neurotransmissor, eu aqui deixo o repto a quem quiser: não procurem neurotransmissores, saibam é encontrar Aquela pessoa que nos faz sentir felizes. Talvez não seja hoje, nem mesmo amanhã. Mas fiquem certos que quando a encontrarem, tudo aquilo que descrevi acontece! E é tão lindo, que até dói.

Dói de tanto fazer e sentir felicidade. Mas para esta dor por favor não encontrem cura!

Porto, 21 de Outubro 2006 (Recuperado)